PALAVRAS AO VENTO
(Conselho Político)
Carlos Lindberg
O tempo passa e atravessamos nossas vidas indo ao encontro de coisas com as quais, na maioria das vezes, nem sonhamos.
Quando, no alvorecer da existência humana os caminhos nos parecem encantados, as curvas do futuro nos mostram miragens e ilusões que nos levam a tomar o rumo indicado pelos sonhos. Mas, quando o passar dos anos nos traz o gosto amargo e frio da realidade que quase sempre nos fere, alguma coisa dentro de nós estanca diante do vazio que fica no lugar da dolorosa perda de nossas esperanças e é aí que temos de dobrar esforços para reconstruir a velha ponte que liga a realidade ao imaginário a fim de transpormos o vale de trevas que fica na tela aterradora do horizonte.
Porém tal sonho precisa ser outro. Já não pode ter a ver com a pequenez do egoísmo e nem ser amesquinhado pelas peripécias dos destinos individuais. Ao contrário, terá necessariamente que ser impulsionado pela força antiga e rara que dá elevação moral e espiritual à espécie humana: a força da esperança de um mundo melhor para todos.
É assim que, ao entardecer de uma existência já destituída de sentido pessoal, não me movo mais em meio à pequenez dos interesses do meu cotidiano e nem me interessam mais as atribulações de meus assuntos individuais. Vivo na contemplação dos amplos espaços de tempo da grande aventura humana e me movo no curso das idéias que movem os séculos.
De mim, como indivíduo, talvez tenha alguma importância o fato de que o fel de todo destino humano, em minha vida pessoal veio na forma de uma existência infeliz, transtornada e cheia de privações. E ainda que o meu caminho rumo ao poente tenha tido apenas a perspectiva das desfigurações, o cerne desta vida foi nobre, teve personalidade e grandeza porque foi generoso e foi bravo até mesmo em face de insuperáveis dificuldades e, ainda quando não reconhecido, teve valor, porque uma certeza, cujo brilho pode até ser desprezado, mas nunca destruído, iluminou meu caminho neste vale de sofrimentos e mesquinharias: a certeza de que a maior riqueza que um homem pode adquirir neste mundo de onde nada se leva, e no qual, mesmo quando muito se possui, muito se sofre, é fazer girar a vida não em torno das moedas, mas em torno das estrelas, do bem, da verdade e da poesia.
No mais, busquei regar com as cores do arco-íris qualquer razão de cinza em nosso chão.
Na política, isso quer dizer que o Brasil deixou de ser o Pais do futuro e não pode mais ser o País do passado. A responsabilidade social dos nossos condutores agora (no presente) é a de desvencilhar-se das peripécias da política infantilizada e atuar com eficácia atitudinal para que seja construída a velha ponte que liga o real ao imaginário, ou seja, materializar a esperança de um mundo melhor para todos. Talvez, para isso seja necessário decompor o branco que simboliza a paz (o qual, na física (e no “físico”) não passa da síntese ótica de todas as cores),classificar as tipologias dessas esperanças, e fazer o máximo para torná-las reais. Em parte isso já foi conseguido com a eleição de uma mulher para o cargo de presidente da república, especialmente pela lição que os votantes deram ao optar pelo “feminino” na política. A minha esperança pessoal é a de que o sentimento materno que pulsa dentro do peito da suprema mandatária traduza-se num cuidado muito mais zeloso e abrangente (coletivo) para com os filhos de uma nação de desvalidos. Só assim poderemos livrarmo-nos do estigma de sermos um dos países mais ricos que “abriga” o maior número percentual de pobres. Dessa forma, acredito e espero, que a visão materna da suprema mandatária estenda seus cuidados pela via política da “mão estendida” ao social, ao ético, ao econômico, ao cultural (artes, música, literatura), ao verdadeiramente antropológico, porque o Brasil tem tudo para exportar-se e neo-colonizar o mundo com seu exemplo de vida justa, solidária, prospera e plural porque isso é o que nos tornará singulares quando tratar-se de moldar o melhor modelo de dignidade existencial para o mundo. Seja bem-vinda Presidenta Dilma.
Para isso existe “receita” universal, "but the cook must be multilingual".
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